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Retirada de trilhos ferroviários históricos de Itabirito é retrocesso incalculável

Retorno com entusiasmo e agradecimentos à função de articulista para o novo site Impacto Atual, convite realizado pelo jornalista Romeu Arcanjo. Uma opção de jornalismo ético e transparente para a Região dos Inconfidentes.

Estou tendo a oportunidade de estudar e residir em uma capital da Europa: Dublin, na Irlanda, mescla em perfeito sincronismo sua história medieval com desenvolvimento tecnológico. Prédios e variados estilos arquitetônicos se abraçam ao contemporâneo oferecendo uma sensação de nostalgia, respeito com seu passado e modernismo. Os pontos turísticos e parques fazem parte ativamente da cidade, interligados assim como toda cidade por uma malha eficiente de transporte público.

Aproveito a oportunidade para ressaltar o quesito limpeza de Itabirito, que não fica atrás de Dublin.

Conforme mencionado acima, a eficiência do transporte púbico foi o maior impacto que senti até o momento. Desde os caminhões a bicicletas possuem condutas para circularem pela cidade. Pontos de ônibus equipados com letreiros digitais informando o tempo de chegada de cada ônibus: pontuais e com wi-fi gratuito. O valor é definido de acordo com a distância percorrida e coerente com os custos da cidade. Estudante paga meia. A maior disparidade comparando-se com as cidades brasileiras é em relação ao transporte ferroviário. Uma cidade que contempla este tipo de transporte é sinônimo de desenvolvimento e inteligência de seus responsáveis.

Sistemas ferroviários de Dublin. Foto: reprodução

O sistema ferroviário da cidade é denominado LUAS, uma tradução para “metrô de superfície”, sendo composta por duas linhas, verde e vermelha, num total de 36 km de malha ferroviária e atendendo cerca de 90 mil pessoas por dia. Você consegue se deslocar rapidamente e pontualmente por grande parte da cidade. Um serviço totalmente governamental.

Trem na Irlanda: exemplo para o mundo

Acompanhei com muito pesar e desconforto a retirada dos trilhos históricos em Itabirito e agora recentemente as informações do asfaltamento. Ainda tinha esperanças que este projeto não fosse adiante. Imaginem um trem operando em Itabirito, com estações no Marzagão, Nossa de Fátima, Centro, Padre Adelmo e quem sabe até outros distritos e cidades? Interligados através de uma rede eficiente e economicamente viável. Asfalto não é sinônimo de desenvolvimento eficiente para uma cidade quando se tem facilmente a opção ferroviária. Além da falta de comprometimento com o desenvolvimento sustentável, é também uma afronta ao passado que nos ergueu principalmente através destes mesmos trilhos hoje “encobertos pelo asfalto”.

Para complementar este artigo pedi a opinião técnica de meu amigo Cézar Figueiredo, arquiteto urbanista e mestre em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável pela UFMG e professor de Arquitetura na Unifor-MG:

Pedro Ayres opina no Impacto

“O transporte sobre trilhos é hoje a opção de transporte urbano que melhor atende as grandes demandas do mundo. Cidades em países desenvolvidos nas últimas décadas investiram na ampliação de suas malhas ferroviárias, conexão entre cidades e em trens urbanos. Mesmo na América latina, Buenos Aires e Santiago ampliaram suas redes de metrô e trens. O trem é uma alternativa mais completa e eficiente ao automóvel, tanto pela sua capacidade de transportar muito mais pessoas ocupando a mesma área, quanto pelo seu custo reduzido para o usuário do sistema (andar de metrô em Belo Horizonte, por exemplo, custa hoje R$ 1,80). Se pensarmos que temos hoje uma malha ferroviária pouco utilizada e grande parte abandonada, como é o caso de Itabirito, a implantação de uma rede ampla de trens de passageiros demandaria baixo investimento e atenderia amplamente a população. Retirar as linhas de trem para se produzir um corredor viário pouco demandado na prática, basta ver a baixa utilização da Rua Belo Horizonte que é paralela a esse corredor viário, é investir num sistema de priorização de um meio de transporte individualizado, poluente e na contramão de todas as ações desenvolvidas hoje no mundo. Na ânsia de se atender a um projeto político nascido de desejos pessoais do passado podemos estar jogando fora nossa conexão com um futuro mais sustentável e inclusivo.”

Finalizo enfatizando a última frase da opinião acima, que esse retrocesso incalculável para o desenvolvimento de Itabirito nada mais é do que um jogo de interesses e vaidades de certos feudos existentes em Itabirito.

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