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O analista de Bagé em: Brincadeira

O Texto a seguir foi retirado do livro: O analista de Bagé, escrito por Luís Fernando Veríssimo em 1981.

Brincadeira

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
– Eu sei de tudo.
Depois de um silêncio,o outro disse:
– Como é que você soube?
– Não interessa.Sei de tudo.
– Me faz um favor. Não espalha.
– Vou pensar.
– Por amor de Deus.´
– Está bem.Mas olhe lá,hein?
Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
– Sei de tudo
– Co-como?
– Sei de tudo.
– Tudo oquê?
– Você sabe.
– Mas é possível.Como você descobriu?
A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:
– Alguém mais sabe?
Outras se tornavam agressivas:
– Está bem,você sabe. E daí?
– Daí nada.Só queria que você soubesse que eu sei.
– Se você contar para alguém eu…
– Depende de você 
– De mim, como?
– Se você andar na linha, eu não conto.
– Certo.
Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
– Eu sei de tudo.
– Tudo oquê?
– Você sabe.
– Não sei.O que é que você sabe?
– Não se faça de inocente.
– Mais eu realmente não sei.
– Vem com essa.
– Você não sabe de nada.
– Ah, quer dizer que existe alguma coisa para saber,mas eu é que não sei o que é?
– Não existe nada.
– Olha que eu vou espalhar…
– Pode espalhar que é mentira.
– Como é que você o que eu vou espelhar?
– Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
– Está bem. Vou espalhar.
Mas dali a pouco veio um telefonema.
– Escute.Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.
– Aquilo o quê?
– Você sabe.
Passou a ser temido e respeitado.Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:
– Você contou para alguém?
– Ainda não.
– Puxa.Obrigado.

.
Com o tempo,ganhou uma reputação. Era de confiança.
Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
– Por que eu? – quis saber.
– A posição é de muita responsabilidade -disse o amigo. – Recomendei você.
– Por quê?
– Pela sua discrição.
Subiu na vida.Dele se dizia que sabia tudo sobre todos mas nunca abria a boca para falar de ninguém.Além de bem informado,um “gentleman”.Até que recebeu um telefonema.Uma voz misteriosa que disse:
– Sei de tudo.
– Co-como?
– Sei de tudo.
– Tudo o quê?
– Você sabe.
Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que uma noite vieram muitos carros e cercaram a cas. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que mais se ouvia era a dele, gritando:
– Era brincadeira! Era brincadeira!
Foi descoberto de manhã, assasinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo:

Sabia demais!

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